quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Adoramos gente simpática

Risos. Sorrisos. Céu ensolarado. Brisa suave e refrescante. Cores vivas e alegres. Mundo feliz.

Não, não se trata de uma novela das 9; de um filme tipo comédia romântica enlatada, engarrafada ou embalada em marmitex de alumínio, tampa de papelão e etiqueta colorida junto com um potinho de plástico com gelatina framboesa ou cereja ou morango (não importa, são todas iguais e nunca vi uma framboesa pessoalmente) para sobremesa e uma colher de plástico. Nem se trata de uma propaganda da Claro, de brinquedos, de cadeias de Fast-food para lanches com alto teor de gorduras saturadas, sódio e algo verde que muito remotamente lembre um picles. Nem se trata de campanha partidária petista ou tucana.

Risos e sorrisos de sacanagem, céu cinzento com ar seco, brisa gerada pelo fluxo de veículos a diesel e cores desbotadas de calças e camisetas Niki, Addidas, Pluma penduradas na sacada de algum república em um mundo bobo feliz se transformam quando há simpatia.

Acordei cedo e dormi pouco (dormi às 3 e acordei às 4. Mentira. Acordei às 8h; era só para dar a impressão de universitário dedicado, esforçado e brahmeiro guerreiro). Hoje fiz uma radiografia panorâmica (que era para 5 meses atrás. É a arte de procrastinar). A recepcionista/ secretária me atendeu muito bem. Copiou meu nome e com muita dificuldade meu sobrenome conforme solicitação da ortodontista. Dei um sorriso entendendo o problema de nomes complicados.
"O nome só são esses ou tem mais?"
Dei outro sorriso como se eu tivesse cara de jovem com histórico oprimido, reprimido por causa do nome complexo e desafiador, fonte de piadas sem graça e repetitivas por toda a vida e por aprender escrever corretamente muito tardiamente o próprio nome. Era a cara de alguém com nome complicado e que sempre via tal cena quando era necessário copiá-lo.
"Na verdade tem mais..." Não soletrei meu nome. Faz tempo que desisti de fazê-lo pela demanda de tempo, paciência e disposição. Agora apenas saco majestosamente meu RG da carteira velha falsificada de couro sintético e tão surrada como se sugerisse a história de uma pessoa aventureira tipo Indiana Jones ou Ana Maria Braga (ai, ai, sempre ela!) após vários anos de luta e batalha e passo para a pessoa copiar corretamente meu nome. Foi então que comecei a conversar brevemente com a simpática moça (não, não flerto).
"Vou fazer um cartãozinho, aí não preciso soletrar". Brinquei.
Foi aí que conversamos brevemente, mas de forma bem descontraída.

Depois de algum tempo ela percebeu que, "Nossa, seu nome tem quatro H's!" e voltamos a conversar.

Apesar de jovem com histórico oprimido, reprimido por causa do nome complexo e desafiador, fonte de piadas sem graça e repetitivas por toda a vida e por aprender escrever corretamente muito tardiamente o próprio nome, percebo que o nome é uma vantagem competitiva no concorrido mercado de nomes e sobrenomes. O nome complexo com vários H's marcam na memória das pessoas pelo seu caráter exótico e geram sempre um motivo para iniciar uma prosa com qualquer um.

Por isso a propaganda do Superior Tribunal Eleitoral não se aplica a min e eu provavelmente não irei parar em uma família italiana. É mais fácil de encontrar um documento meu na maioria das burocracias. Sou único. Imagine se me chamasse, como tantos homônios, Luiz da Silva?!
"O nome só são esses ou tem mais?"
"Não; são esses mesmos."
(...)
(...)
(...)
(...)
"Ok, pode se sentar".

Não poderia encontrar um motivo para sacar majestosamente meu RG da carteira velha falsificada de couro sintético e tão surrada como se sugerisse a história de uma pessoa aventureira tipo Indiana Jones ou Ana Maria Braga (ai, ai, sempre ela!) após vários anos de luta e batalha denunciando o misterioso nome complexo causa de opressão, repressão de qualquer outro nome complexo e desafiador e fonte de piadas sem graça e repetitivas por toda a vida.

Se chamasse Luiz da Silva, a moça não indagaria:
"Nossa, seu nome tem L S!".
(...)
(...)
Seria uma situação estranha. E ela pareceria psicótica.

Mas o tema não é o nome, mas sim a simpatia das pessoas. É a arte da digressão e do déficit de atenção gerado por traumas de misterioso nome complexo causa de opressão, repressão de qualquer outro nome complexo e desafiador e fonte de piadas sem graça e repetitivas por toda a vida (aliás, essa técnica de ficar repetindo as frases pelo texto todo, além de me valer de fonte de humor, poupa-me de criar e escrever coisas novas a não ser meu histórico de  traumas de misterioso nome complexo causa de opressão, repressão de qualquer outro nome complexo e desafiador e fonte de piadas sem graça e repetitivas por toda a vida).

Em seguida, me dirigi ao consultório odontológico na mesma rua e a atendente também se mostrou muito simpática e conversamos sobre coisas aleatórias (insisto que também não estava flertando, mas é evidente que a conversa não se estenderia tanto se fosse UM atendente).

Droga. O Post ficou muito grande; vou publicar pela metade mesmo.

Legítima framboesa

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